As tecnologias imersivas têm-se revelado um dos recursos digitais mais solicitados em diferentes setores de atividade. Desde a gestão de ativos imobiliários, à Cultura, passando pelo setor da Saúde, Realidade Aumentada (AR) e a Realidade Virtual (VR) – dois exemplos de tecnologias imersivas – apresentam-se como ferramentas essenciais para o nosso quotidiano.
Imaginemos a experiência de comprar um móvel online. A forma como conseguimos visualizar o objeto que pretendemos adquirir é mais fácil, já que o conseguimos observar a partir de diferentes ângulos, numa visão de 360 graus, ao utilizarmos a Realidade Virtual. Podemos até estar remotamente a quilómetros de distância do objeto, que basta um clique para nos aproximar e conseguimos ver praticamente tudo até ao mais ínfimo pormenor.
A tecnologia imersiva transporta-nos para o mundo digital, criando nele um sentimento sensorial de realidade para o utilizador (através da visão). Foi precisamente este o tema da Lisboa Innovation Tour de fevereiro, que decorreu no Vodafone Innovation Center. Não foi preciso colocar uns goggles para nos debruçarmos a fundo sobre este admirável mundo novo e assim ficarmos a conhecer as diferentes perspetivas de quem conhece o assunto em profundidade.
João Neves, Head of Technology & Innovation and Executive na Capgemini Engineering Portugal, João Rodrigues, Founder & Executive Director da Cyango, Rita P. Magalhães, Project & Team Manager da Infinite Foundry, mantiveram uma discussão aberta sobre o impacto e as oportunidades que estas tecnologias trazem ao ecossistema de inovação de Lisboa. Maria Vilar, Founder & CEO da Immersiv Studios, conduziu a conversa.
Uma das mais interessantes utilizações da tecnologia imersiva foi apresentada na ocasião: trata-se do projeto Hedge, da Universidade Nova de Lisboa, que integra o Programa Património Cultural 360, no âmbito do qual estão a ser digitalizados bens culturais móveis de 65 museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos portugueses, que serão disponibilizados online de forma universal e gratuita.
As TI estão em todo o lado. Qual o maior desafio que se apresenta no contexto atual? “O preço, tanto no que diz respeito ao hardware como ao software. Ambos ainda são caros. Além disso, há dentro do leque das TI os wearables, cujo uso ainda não está muito disseminado”, refere João Rodrigues.
Todavia, dizem os especialistas, os dispositivos de realidade aumentada vestíveis (tais como óculos escuros tipo Ray-Ban, que tiram fotos, fazem vídeos e têm música incluída), ativados com a voz, vão ser a grande trend em 2025.
Ainda no que diz respeito a desafios, João Rodrigues, que é fundador deste setor, dá a sua perspetiva de uma forma bastante elucidativa: “As grandes empresas têm o grosso da coluna dos financiamentos para apostarem nas tecnologias imersivas. Conseguem suportar os custos que a inevitável e imparável obsolescência associada aos gadgets e programas acarreta. O mesmo não se passa com empresas de mais pequena dimensão”.
E João Rodrigues dá o seu caso como exemplo ilustrativo: “Construí esta plataforma (a Cyango) em 2017, comprei uma câmara 360 para virtual tours, mas apercebi-me logo que investimos numa tecnologia que muito rapidamente ficou ultrapassada. Ou seja, temos que estar em permanente atualização e isso custa dinheiro”, sublinha.
Para Rita Magalhães, da Infinite Foundry, as cidades e respetivas autoridades locais podem ter um papel importante nesta questão dos desafios que se colocam ao ecossistema empreendedor do setor das TI: “Lisboa deveria reter mais talento nesta área, trabalhar com outros mercados e investir na inovação. As TI são muito úteis para as cidades ao nível da mobilidade, segurança e sustentabilidade. Podem mesmo ser um verdadeiro serviço público”.
João Neves, da Capgemini, corrobora esta posição, afirmando que a capital portuguesa “está particularmente bem posicionada para captar talento. Porque não tornarmo-nos num centro de inovação nesta área?!”, questiona.
As TI, tal como a Inteligência Artificial, mexem com questões de regulamentação: proteção de dados pessoais, cibersegurança, avatares, etc. São preocupações comuns para as quais ainda não existe muita legislação. “Sei que a União Europeia está preocupada e a trabalhar nisto, mas ainda não há nada de concreto. É preciso termos cuidado porque, tal como nas redes sociais, no metaverso também não sabemos quem está do outro lado”, conclui Maria Vilar.